Jaipur – 5 a 9 de março.

Estávamos deixando o hotel em Agra. Fomos pegar o carro no estacionamento e percebemos que o para-brisa estava trincado. Falamos com a administração do hotel e não quiseram assumir nada. Deixamos o carro no mesmo lugar e enquanto a Liana ficou tomando providências no hotel, junto ao carro, Sidnei foi até a polícia para registrar o fato e ter um relatório oficial. No departamento de polícia fomos muito bem tratados, recebemos nossos papéis oficiais e iniciamos nosso deslocamento só duas horas depois.

A estrada, ainda com cobrança de pedágio, já era do tipo normal. Alguns carros rodando na contramão de vez em quando, aglomerações, etc….

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Trânsito normal na saída de Agra.

Estrada cheia...

Estrada cheia…

No caminho, paramos em um restaurante com a cozinha à mostra. A Liana não se sentiu à vontade com o que ela via. Ela explicou que estaríamos nos arriscando se comêssemos ali por causa de bactérias que poderiam nos fazer mal, etc. Eu mandei um rango muito bom. Claro, fiquei torcendo pra não acontecer nada comigo, pois eu iria ouvir bastante se passasse mal…

Segundo a Liana, a cozinha das bactérias.

Segundo a Liana, a cozinha das bactérias.

Algum tempo depois, alcançamos Fatherpur Sikri, ‘cidade fantasma’, fundada em 1571, mistura estilos hindu e islâmico e foi a capital mogul por 14 anos. Foi abandonada, segundo a lenda, devido a falta d’água.

Tumbas em Fatehpur.

Tumbas em Fatehpur.

Buland Darwaza. Portal erguido em 1573.

Buland Darwaza. Portal erguido em 1573.

Deixamos Fatehpur por volta das 16h40min em direção à Jaipur, uns 180km adiante. Vimos o sol se por exatamente na nossa frente.

Final de tarde na estrada entre Agra e Jaipur.

Final de tarde na estrada entre Agra e Jaipur.

Anoiteceu. Os faróis do nosso carro estavam bastante ruins. Estava escuro e a maioria dos carros vinha em sentido contrário com faróis altos. Faltavam ainda 70km para nosso destino quando um animal cruzou a estrada bem na nossa frente. Freamos, mas acertamos uma vaca. Conseguimos parar nosso carro fora da estrada e ainda ouvimos quando um segundo carro também bateu no animal. Não nos machucamos. Rapidamente apareceram algumas pessoas que nos cercaram. Algumas outras foram em direção ao segundo carro, que logo arrancou. Pararam uns três veículos e eles pareciam avisar os outros motoristas do jeito deles. No grupo de pessoas à nossa volta ninguém demonstrou falar inglês. Falamos “Polícia” e uns dois deles pegaram celulares, conversando entre si, e nós entendemos que alguém ligou para a polícia. Ligamos nosso carro e o colocamos um pouco mais distante da rodovia, pois havia parado mais uns carros e pessoas e estávamos em uma posição não muito segura. Em uns 10 minutos chegou um carro da empresa que mantém a rodovia. Foram sinalizar a via e não me lembro de terem perguntado nada pra nós. Mais alguns minutos, a polícia apareceu. Conversamos com os policiais e perguntaram o que eles poderiam fazer por nós. Explicamos que o carro não era nosso e que necessitaríamos de informação sobre quais procedimentos deveríamos fazer em virtude do acidente. Eles nos disseram que deveríamos acompanhá-los. Tiramos tudo de dentro do carro, inclusive nossas malas e subimos no jipe da polícia. Nem rodamos, paramos novamente: era um policial que estava caminhando e nos disse que nós matamos a vaca. Ficamos preocupados, pois já sabíamos que este animal é importante para os indianos. Perguntamos ao grupo de policiais se o fato da vaca ter morrido traria consequências para nós. Eles disseram que não precisávamos nos preocupar, que não haveria problema. Fomos então levados para o departamento de polícia, numa cidade a pouco mais de 2km à frente. Já no prédio da polícia, fomos recebidos com cordialidade e curiosidade. Explicamos mais uma vez o ocorrido, perguntamos quais as providências de praxe e dissemos que gostaríamos de entrar em contato com a locadora do veículo para informar o acidente. O policial-chefe retirou seu próprio telefone celular, contatou o nosso hotel em Jaipur e solicitou um orçamento para que eles providenciassem transporte dali até o hotel. Fez também a ligação para a Locadora em Delhi e informamos o ocorrido. A ligação caía sempre e, no final das contas, o próprio chefe de polícia conversou com o escritório da locadora e nos disse que o veículo acidentado ficaria no pátio deste departamento policial à disposição da companhia locadora. Deixamos cópias de passaporte e habilitação, hotel de destino, documentos e chave do veículo com eles. Tão logo chegaram o pessoal do hotel de Jaipur, assinamos alguns papéis no idioma indiano, outros em inglês, finalizamos as formalidades e deixamos o departamento de polícia, vendo que nosso carro já havia sido empurrado até lá!

Chegamos ao hotel por volta das 23h. Estávamos tensos e cansados. Dormimos como pedra.

No dia seguinte, acordamos tarde. Ficamos o resto da manhã redigindo e-mails para a locadora e seguradora, além de rever arquivos para demais providências.

Saímos no início da tarde para visitar o City Palace Museum e Jantar Mantar, ambos monumentos que ficam na velha Jaipur, considerada a cidade rosada devido as cores das construções.

City Palace.

City Palace.

City Palace.

Riddhi-Siddhi Pol, City Palace em Jaipur.

Jantar Mantar é um observatório, construído entre 1728 e 1734 pelo entusiasta astronômico Sawai Jai Singh II. Este observatório foi descrito como a paisagem de pedra mais realista e lógica.

Ao final da visita, fomos de volta ao encontro do pessoal do hotel e eles nos disseram que a polícia havia aparecido no hotel e que queriam falar conosco novamente. Seguimos para o hotel e aguardamos os policiais.

Logo retornaram. Eram quatro: três que nós já havíamos conversado na noite anterior e mais uma mulher, pois percebemos que também usava o uniforme sob um manto.

Equipe de policiais que rodou 70km para nos encontrar no hotel...

Equipe de policiais que rodou 70km para nos encontrar no hotel…

Eles nos disseram que precisavam coletar mais dados sobre o acidente, pois teriam que iniciar um processo, que nós seríamos levados à Corte, que haveria o pagamento de uma multa e que a habilitação e passaporte do motorista iriam ficar retidos até o encerramento do processo, o que, segundo eles aconteceria no dia seguinte.

Ficamos intrigados com o fato dos mesmos policiais, que na noite anterior havia nos liberado, algumas horas depois se deslocarem 70km até o nosso encontro e dizerem que necessitariam fazer algo diferente e mais completo. Depois de ouvirmos as explicações, pensamos em duas hipóteses: 1) O caso sofreu repercussão e perceberam que não seguiram o protocolo. Então foram ao nosso encontro para completar as formalidades que não foram atendidas na ocasião do acidente; ou 2) Estariam aumentando a demanda para nos apresentar uma situação mais grave com o intuito de obter algum tipo de vantagem.

Enquanto conversavam em indiano entre eles, nós fazíamos nossos planos em português, de forma discreta, com o intuito de evitar cair em alguma cilada, caso houvesse uma em andamento. Numa destas conversas defensivas, estava me preparando para usar o argumento de que o passaporte pertence à República Federativa do Brasil e que eu necessitaria ligar para a embaixada brasileira em Delhi para obter informação se deveríamos ou não entregar o passaporte, pois não queríamos fazer nada errado. Saí discretamente e falei com a embaixada por um celular que o pessoal do hotel nos emprestou. Consegui falar e fui devidamente instruído. A Liana sinalizou pra mim e eu entendi que o policial quis saber com quem eu estava falando. Ao término da ligação, voltei e me sentei junto ao grupo. Logo o policial me perguntou o que o pessoal da Embaixada havia dito. Procurei ser bastante diplomático na minha resposta, mas tentei não deixar dúvidas que eu havia de fato falado com a embaixada, que havia recebido informações oficiais e que eu deveria manter a embaixada informada sobre o caso. No decorrer do encontro, eles tomaram nota de todos os fatos que envolveram o acidente. Assinamos outros formulários e ao final de umas três horas foi produzido um volume considerável de documentos – quase todos eles manuscritos! Em um desses documentos um dos donos do hotel, o Sr. Kush, assinou um termo de responsabilidade por nossa presença na audiência!

Na manhã seguinte fomos acompanhados pelo Sr. Kush novamente até Dausa, a cidade onde ocorrera o acidente. Na hora marcada, chegamos ao departamento de polícia sem saber se seria lá a audiência. Fomos muito bem recebidos e aguardamos bastante. Enquanto isso, um ou outro policial conversava conosco, oferecia alguma coisa, etc… Todos muito solícitos, profissionais e atenciosos.

Mas ainda não estávamos seguros do rumo que tudo aquilo poderia tomar…

Desde a reunião do dia anterior, eles falaram que haveria pagamento de uma multa e que esta multa seria entre quinhentos e mil Rúpias, o que equivale a aproximadamente 20 a 40 Reais e que este valor seria arbitrado por alguém que ainda não entendíamos quem seria. Quando um policial nos perguntou sobre nossos salários no Brasil eu acreditei que ele estaria interessado, de fato, em algum tipo de benefício em troca de alguma liberação ou algo do gênero. Neste momento, o celular dele tocou e desviamos o assunto…

Por volta das 11h fomos encaminhados até a Corte, onde ficamos até as 17h. Foram horas apreensivas, pois um processo foi aberto e teríamos que responder diante de um Juiz. O fato de não compreendermos a língua, fazia com que dependêssemos da cooperação de outras pessoas para tradução, desde perguntas simples até no preenchimento de diversas declarações e requerimentos. No papel de tradutores, tivemos o pessoal do hotel, Kush e Roat, o chefe do departamento de polícia, entre outros interessados em nos ajudar.

Um advogado foi constituído para nos representar – só soubemos disso por outras pessoas, pois mal nos falamos. Na medida em que o processo avançava, nos apresentávamos diante da corte e havia um papel para redigir ou assinar. Falamos com o juiz duas vezes: ele se dirigia a nós em inglês e o fazia de forma objetiva e cordial, nos transmitindo muita segurança.

Ao longo do tempo, percebemos que parecia ser incomum dois ‘gringos’ sendo julgados ali naquela cidade pequena. Estávamos sendo o fato curioso daquele dia. A cada hora uma ou outra pessoa queria nos fotografar e muitas vezes a Liana era o centro das atenções, talvez pelo visual diferente… No final, até uma rede de televisão local apareceu para entrevista, mas o foco das perguntas foi o tratamento que a polícia nos deu.

Finalmente foi estipulada a multa de menor valor. Fizemos o pagamento mediante recibo e recebemos os documentos retidos. Pedimos para conversar com o magistrado. Ele então nos recebeu em sua sala, de forma gentil e cortês, quando mais uma vez tivemos a oportunidade de agradecer e nos desculparmos pela ofensa, considerando que houve a morte de uma vaca.

Acreditamos que equipe de polícia fez um trabalho bem diferente da rotina habitual. Porém a equipe nos acompanhou por quase todo o período, prestando informações e nos dispensando todo o suporte necessário.

Enfim, caso encerrado! Retornamos ao hotel por volta das 20h sem palavras para agradecer aos donos do hotel, que nos deram toda assessoria, além de ficarem como os nossos tutores por todo o dia.

Roat e Kush: verdadeiros anfitriões. Nunca fomos tão bem recebidos em um hotel.

Roat e Kush: verdadeiros anfitriões. Nunca fomos tão bem recebidos em um hotel.

No dia 08, finalmente descansados, fomos explorar Jairpur fora do centro. Passamos o dia visitando alguns Fortes, que foram construídos em uma cadeia de montanhas próximas à cidade. Notáveis fortalezas como Nahargarh e Jaigarh Fort, que protegiam Amber (cidadela em 1727) e a nova capital, Jaipur.

Defesas do Jaigarh Fort e, abaixo, o Forte e Palácio de Amber.

Defesas do Jaigarh Fort. Em segundo plano, o Forte e Palácio de Amber.

Fortaleza de Amber. Erquida em 1592, sofreu acréscimos de outras edificações entre 1621 e 1667.

Fortaleza de Amber. Erquida em 1592, sofreu acréscimos de outras edificações entre 1621 e 1667.

Cidade de Jaipur, vista do Jaigarh (Forte da Vitória).

Cidade de Jaipur, vista do Jaigarh (Forte da Vitória).

Lago Man Sagar com Jal Mahal (Palácio da Água), construído em meados do século 18.

Lago Man Sagar com o Jal Mahal (Palácio da Água), construído em meados do século 18.

Detalhe do Jal Mahal imerso no lago Man Sagar.

Detalhe do Jal Mahal imerso no lago Man Sagar.

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8 respostas para Jaipur – 5 a 9 de março.

  1. danteborges disse:

    Eu não sei se morro de rir, se morro de dó da vaca sagrada ou se fico tenso em pensar o mega perrengue que vocês passaram. P()%&*ta que p@#&iu! Já que vocês estão bem e que tudo foi resolvido, prefiro morrer de rir: huahuahuahuahuahua!!!! Que bela aventura meus amigos. E lindas as fotos, parabéns!

  2. Renata Rocha Amaral disse:

    Nossa tava parecendo mais uma novela mexicana!Tudo por causa de uma vaca sagrada!PQP!Voces deviam escrever um livro sobre a viagem!kkk

  3. Renata Rocha Amaral disse:

    Estou adorando as histórias!As fotos então nem se fala!Lindas!!

  4. disse:

    Sidao, o Bigornas Advogados e Associados tem um serviço de total cobertura nesses casos. Se voces tivessem falado que eram clientes do mestre bigorna, que por sinal já foi um Dalai Lama, seriam liberados na hora com direito a uma noite no Taj Mahal. Na se esqueça dos serviços do mestre birgorna… Implanta nessa bagassa. Regassaaa

  5. Japa disse:

    Sidão, desculpe meu amigo… mas não aguentei…chorei de rir..parece até mentira isso!!! kkkkkkkk

  6. danteborges disse:

    Pegadinha do malandro?? rsrs

  7. Maguito disse:

    tive problemas pra logar da Iveco mas to acompanhando tudo, com uma vontade louca de estar ai com vcs e de ter atropelado a vaca tb…hehehe
    muitas histórias…lindas fotos, que viagem….saudades de voces..aproveitem

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